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domingo, agosto 16, 2009

harvest moon





Come a little bit closer
Hear what I have to say
Just like children sleepin
We could dream this night away.

But theres a full moon risin
Lets go dancin in the light
We know where the musics playin
Lets go out and feel the night.

Because Im still in love with you
I want to see you dance again
Because Im still in love with you
On this harvest moon.

When we were strangers
I watched you from afar
When we were lovers
I loved you with all my heart.

But now its gettin late
And the moon is climbin high
I want to celebrate
See it shinin in your eye.

Because Im still in love with you
I want to see you dance again
Because Im still in love with you
On this harvest moon.



( se há coisas perfeitas, esta é uma. obrigada! )

sábado, agosto 08, 2009

my body is a cage


Arcade Fire - My Body Is A Cage - Arcade Fire



My body is a cage
That keeps me from dancing with the one I love
But my mind holds the key

I’m standing on the stage
Of fear and self-doubt
It’s a hollow play
But they’ll clap anyway

I’m living in an age
That calls darkness light
Though my language is dead
Still the shapes fill my head

I’m living in an age
Whose name I don’t know
Though the fear keeps me moving
Still my heart beats so slow

My body is a cage
We take what we’re given
Just because you’ve forgotten
Doesn’t mean you’re forgiven

I’m living in an age
Still turning in the night
But when I get to the doorway
There’s no one in sight

I’m living in an age
Realizing I’m dancing
With the one I love
But my mind holds the key

Still next to me
My mind holds the key
Set my spirit free

segunda-feira, julho 13, 2009

dez chamamentos ao amigo

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse


Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.


Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta


Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

(I)



Hilda Hilst

(daqui)

sábado, junho 20, 2009

Casamento em Bangkok

disse-me

aprendi o essencial tailandês
para não me perder na rua
saber o que vou comer nos restaurantes
dizer-lhe que a amo

mas não o suficiente para
lhe explicar o porquê

por isso
aponto com o olhar as árvores do pomar
são o nosso pequeno resguardo
de beleza

seguimos o perfume
ela sabe


Miguel-Manso
Contra a Manhã Burra,
(Mariposa Azul, 2009)





sexta-feira, maio 22, 2009

O TERCEIRO

Em casa da minha avó paterna
chamava-se terceiro à espécie
de arrecadação de dois andares
que ficava ao fundo de um corredor.
Era para onde fugíamos sempre
que encontrávamos a porta
aberta – e a aventura valia bem
a reprimenda. O terceiro

era arriscado e umbroso, as telhas
coavam o ar da tarde onde dançava
uma poeira lenta e muito antiga.
Grandes aranhas negras e nervosas
pareciam vigiar o que restara
da infância do meu pai
e seus irmãos: cromos das Raças

Humanas, revistas com desenhos
humorísticos onde homens e mulheres
usavam sempre chapéu. Um mundo
desaparecido, morto havia décadas –
como se a casa, na sua difícil progressão
para o futuro, se tivesse esquecido
do terceiro no passado. Bem vistas
as coisas, porém, a verdade era outra:

o terceiro adiantara-se, tinha chegado
mais cedo ao destino que aguardava
tudo o resto. A avó, a casa inteira –
e a parte de mim que lhes pertencia.
Esta relação de ausências é contrária
ao emprego das palavras. E é por isso
que eu não sei acabar este poema.


Rui Pires Cabral
Longe da Aldeia
(Averno, 2005)


(obrigada!)

quarta-feira, maio 20, 2009

Natureza




A Natureza é um templo onde vivos pilares
Pronunciam por vezes palavras ambíguas;
O homem passa por ela entre bosques de símbolos
Que o vão observando em íntimos olhares.

Em prolongados ecos, confusos, ao longe,
Numa só tenebrosa e profunda unidade,
Tão vasta como a noite e como a claridade,
Correspondem-se as cores, os aromas e os sons.

Há perfumes tão frescos como a jovem carne,
Doces como oboés e verdes como prados,
– E há outros triunfantes, ricos, corrompidos,

Que se expandem no ar como coisas sem fim,
Como o âmbar, o almíscar, o incenso, o benjoim,
E cantam os arroubos da alma e dos sentidos



Charles Baudelaire




(obrigada! já percebi a troca das letras! é o que dá fazer copy-pastes à pressa :-p)

quarta-feira, outubro 08, 2008

message personnel




Isabelle Hupert, no filme "8 mulheres"



Au bout du téléphone, il y a votre voix
Et il y a des mots que je ne dirai pas
Tous ces mots qui font peur quand ils ne font pas rire
Qui sont dans trop de films, de chansons et de livres
Je voudrais vous les dire
Et je voudrais les vivre
Je ne le ferai pas,
Je veux, je ne peux pas
Je suis seule à crever, et je sais où vous êtes
J'arrive, attendez-moi, nous allons nous connaître
Préparez votre temps, pour vous j'ai tout le mien
Je voudrais arriver, je reste, je me déteste
Je n'arriverai pas,
Je veux, je ne peux pas
Je devrais vous parler,
Je devrais arriver
Ou je devrais dormir
J'ai peur que tu sois sourd
J'ai peur que tu sois lâche
J'ai peur d'être indiscrète
Je ne peux pas vous dire que je t'aime peut-être

Mais si tu crois un jour que tu m'aimes
Ne crois pas que tes souvenirs me gênent
Et cours, cours jusqu'à perdre haleine
Viens me retrouver
Si tu crois un jour que tu m'aimes
Et si ce jour-là tu as de la peine
A trouver où tous ces chemins te mènent
Viens me retrouver

Si le dégoût de la vie vient en toi
Si la paresse de la vie
S'installe en toi
Pense à moi
Pense à moi

Mais si tu crois un jour que tu m'aimes
Ne le considère pas comme un problème
Et cours, cours jusqu'à perdre haleine
Viens me retrouver
Si tu crois un jour que tu m'aimes
N'attends pas un jour, pas une semaine
Car tu ne sais pas où la vie t'emmène
Viens me retrouver

Si le dégoût de la vie vient en toi
Si la paresse de la vie
S'installe en toi
Pense à moi
Pense à moi.

Mais si tu...


Françoise Hardy

terça-feira, setembro 02, 2008

Mude

"Mude, mas comece devagar.
Porque a direcção é mais importante, que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua.
Depois. Mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente,
Observando com atenção, os lugares por onde você passa.
Tome outro ônibus.
Mude por uns tempos o estilo de roupas.
Dê os seus sapatos velhos, procure andar descalço algum dia.
Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia
Ou no parque e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche gavetas e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos.
Escolha comidas diferentes. Novos temperos, novas cores,
Novas delícias.
Almoce em outros locais, compre pão em outras padarias.
Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado….outra marca de sabonete, outro creme dental....
Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores, vá passear em outros lugares,
Ame muito, cada vez mais.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as, seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
Longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas, troque novamente, MUDE, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores
Do que as já conhecidas, mas não é isso que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia.

Só o que está morto não muda."


Clarice Lispector


(obrigada!)

sábado, agosto 30, 2008

Silêncio:
as cigarras escutam
o canto das rochas



Matsuo Bashô


(de regresso)

sábado, abril 19, 2008

dois poemas para uma tarde (triste) de chuva

Poética


De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.


Vinicius de Moraes



Amar!


Eu quero amar, amar, perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... Além...
Mais Este e Aquele, o Outro e a toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saibe perder... pra me encontrar...


Florbela Espanca

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Buda e a parábola da casa a arder


Gautama, o Buda, ensinava
A doutrina da roda da cobiça a que estamos amarrados, e recomendava
Que nos libertássemos de todos os apetites e assim
Sem desejos entrássemos no Nada a que ele chamava Nirvana.
Então os seus discípulos perguntaram-lhe um dia:
Como é esse Nada, Mestre? Todos nós gostaríamos
De nos libertar da cobiça, como tu recomendas; mas diz-nos
Se esse Nada em que então entraremos
Acaso é como a unidade com tudo o que é criado,
Como quando se está na água, o corpo leve, ao meio-dia,
Quase sem pensamentos, assim ocioso na água, ou quando caímos no sono,
Mal tendo consciência ainda, caindo rápido, de que ajeitamos
A manta, se esse Nada pois
É assim alegre, um bom Nada, ou se esse
Nada é simplesmente um Nada, vazio, frio, sem sentido.
Muito tempo ficou calado o Buda, depois disse negligente:
Não há resposta à vossa pergunta.
Mas à noitinha, quando eles se tinham ido,
Estava o Buda inda sentado sob a árvore-do-pão, contou aos outros,
Àqueles que não tinham perguntado, a seguinte parábola:
Outro dia vi uma casa. Estava a arder. O telhado
Era já lambido pelas chamas. Aproximei-me e notei
Que ainda havia gente lá dentro. Entrei na porta e gritei-lhes
Que havia fogo no telhado, incitando-os assim
A que saíssem depressa. Mas aquela gente
Não parecia ter pressa. Um perguntou-me,
Já o calor lhe chamuscava as sobrancelhas,
Como é que estava lá fora, se não estava a chover,
Se não correria vento, se havia outra casa,
E ainda mais coisas destas. Sem responder,
Saí outra vez. Estes, pensei eu,
Morrerão queimados, antes de acabarem de fazer perguntas. Na verdade, amigos,
Àquele a quem o chão não está quente o bastante
Pra trocar por qualquer outro em vez de continuar nele,
A esse nada tenho a dizer. Assim Gautama, o Buda.

Mas também nós, já não ocupados com a arte de sofrer,
Antes ocupados com a arte de não sofrer e apresentando
Muitas propostas de natureza terrena e ensinando aos homens
A libertar-se dos seus verdugos humanos, supomos
Que àqueles que, à vista das esquadrilhas de aviões de bombardeamento da capital, ainda perguntem
O que é que nós pensamos, que ideia é que fazemos,
E o que vai ser dos seus mealheiros e das calças domingueiras depois de uma revolução,
Não temos muito a dizer.



B. Brecht

domingo, novembro 18, 2007

vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quanto mais no céu eu vou sonhando,
E quanto mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...


Florbela Espanca

domingo, novembro 04, 2007

suspenso

Comecei dezenas de histórias
e não terminei nenhuma,
não sei para onde vão as minhas personagens
porque é que começam a falar
e logo se calam.
Sobre o papel acontece-me o mesmo que fora dele:
a minha vida é um punhado de inícios
suspensos.


Miriam Reyes, "bela adormecida"

quinta-feira, setembro 13, 2007

esquadros

EU ANDO PELO MUNDO PRESTANDO ATENÇÃO
EM CORES QUE EU NÃO SEI O NOME
CORES DE ALMODÓVAR
CORES DE FRIDA KAHLO, CORES
PASSEIO PELO ESCURO
EU PRESTO ATENÇÃO NO QUE MEU IRMÃO OUVE
E COMO UMA SEGUNDA PELE, UM CALO, UMA CASCA,
UMA CÁPSULA PROTETORA
EU QUERO CHEGAR ANTES
PRA SINALIZAR O ESTAR DE CADA COISA
FILTRAR SEUS GRAUS
EU ANDO PELO MUNDO DIVERTINDO GENTE
CHORANDO AO TELEFONE
E VENDO DOER A FOME NOS MENINOS QUE TÊM FOME

PELA JANELA DO QUARTO
PELA JANELA DO CARRO
PELA TELA, PELA JANELA
(QUEM É ELA, QUEM É ELA?)
EU VEJO TUDO ENQUADRADO
REMOTO CONTROLE

EU ANDO PELO MUNDO
E OS AUTOMÓVEIS CORREM PARA QUÊ?
AS CRIANÇAS CORREM PARA ONDE?
TRANSITO ENTRE DOIS LADOS DE UM LADO
EU GOSTO DE OPOSTOS
EXPONHO O MEU MODO, ME MOSTRO
EU CANTO PRA QUEM?

PELA JANELA DO QUARTO
PELA JANELA DO CARRO
PELA TELA, PELA JANELA
(QUEM É ELA, QUEM É ELA?)
EU VEJO TUDO ENQUADRADO
REMOTO CONTROLE

EU ANDO PELO MUNDO E MEUS AMIGOS, CADÊ?
MINHA ALEGRIA, MEU CANSAÇO?
MEU AMOR CADÊ VOCÊ?
EU ACORDEI
NÃO TEM NINGUÉM AO LADO

PELA JANELA DO QUARTO
PELA JANELA DO CARRO
PELA TELA, PELA JANELA
(QUEM É ELA, QUEM É ELA?)
EU VEJO TUDO ENQUADRADO
REMOTO CONTROLE



Adriana Calcanhoto

segunda-feira, junho 25, 2007

Tu estás aqui

Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui



Ruy Belo
Toda a Terra
Todos os Poemas
Assírio & Alvim
2000

http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/ruy_belo/poetas_ruybelo01.htm

sexta-feira, maio 18, 2007

ir por aí

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

(...)
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?

(...)

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...

(...)

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!

(...)
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
,
- Sei que não vou por aí!




Excertos do "Cântico Negro" de José Régio

quarta-feira, maio 02, 2007

de que nada se sabe

La luna ignora que es tranquila y clara
y ni siquiera sabe que es la luna;
la arena, que es la arena. No habrá una
cosa que sepa que su forma es rara.

Las piezas de marfil son tan ajenas
al abstracto ajedrez como la mano
que las rige. Quizá el destino humano
de breves dichas y de largas penas

es instrumento de otro. Lo ignoramos;
darle nombre de Dios no nos ayuda.
Vanos también son el temor, la duda

y la trunca plegaria que iniciamos.
¿Qué arco habrá arrojado esta saeta
que soy? ¿Qué cumbre puede ser la meta?


Jorge Luis Borges

sexta-feira, abril 20, 2007

Os amantes

I

És tu? Diz-me que sim!
Transforma-te, se não fores,
torna-te no que ninguém esquece,
abre-me o circulo a mim.

Irradia de ti
plena certeza. Levanto
Os braços enfunados pelo teu vento.
És tu? Diz-me que sim!

Mostra-te, leve, assim
como música que reconhecemos
pelo ar que a traz e longe ouvimos…
És tu? Diz-me que sim!

Chama e gelo vi
a envolverem-te num fogo ardente.
Repara, espero-te, distante:
És tu? Diz-me que sim!



Rainer Maria Rilke

quinta-feira, março 08, 2007

Sísifo

Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.


Miguel Torga

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Lusitânia

Os que avançam de frente para o mar

E nele enterram como uma aguda faca

A proa negra dos seus braços

Vivem de pouco pão e de luar.




sophia de mello breyner andresen

http://lugardaspalavras.no.sapo.pt/poesia/sophia.htm