quinta-feira, fevereiro 09, 2012

amor e beleza

"O amor é portanto um amor à beleza. Não saberia, por isso, circunscrever-se ao amor plástico dos corpos, em si mesmo perecível. 
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Infelizmente para nós, garante Lacan, "o amor está já desde há algum tempo separado da beleza". Na era contemporânea, a magia negra inerente ao amor ter-se-á transformado numa banalidade sórdida, num lamentável fiasco entre corpos. Os romances de Michel Houellebecq expõem cruamente a degradação hoje exercida pelo erótico, sublinha também o escritor François Meyronnis em De l'extermination considérée comme l'un des beaux arts. Se Platão ligou o desejo à falta, a grande desgraça actual é ter substituido a falta metafísica pela necessidade vulgar, uma inesgotável máquina de frustrações. "Retira-se ao sujeito o seu desejo", diz ainda Lacan, " e, em troca, ele é enviado para o mercado, onde é submetido a uma hasta pública". Numa era de intercâmbio de corpos e de perpétua insaciabilidade, o Eros-impulso travestiu-se de Eros-tirano. "Uma alma assim tiranizada", prognosticava Fedro, "está sempre exposta à carência e ao vazio". Uma projecção de fantasias mediáticas sobre corpos cada vez menos habitados. Um poço sem fundo de tristeza pelos "íncubos" e "súcubos" em que homens e mulheres se tornaram uns para os outros.
Ousemos uma vez mais afirmar com Sócrates, suger o filósofo contemporâneo Alain Badiou, a "Ideia verdadeira, o Princípio, contra o fantasma desta liberdade com que nos oprimem, a liberdade de depender de objectos insignificantes e de desejos minúsculos". Será necessário, a fim de libertar Eros, reencontrar por detrás do desencanto contemporâneo o entusiasmo do coração puro? A força primitiva da torrente que nos move misteriosamente, terá dito Ortega Y Gasset, e que já deplorava o século anterior por ter deixado de falar do amor verdadeiro."



Aude Lancelin e Marie Lemonnier
"Os filósofos e o amor - amar de Sócrates a Simone de Beauvoir"
Tinta da China

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