terça-feira, junho 02, 2009

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"Sim, pensa Clarissa, já é tempo de o dia acabar. Damos festas, abandonamos as nossas famílias para viver no Canadá, batalhamos para escrever livros que não mudam o mundo apesar das nossas dádivas e dos nossos imensos esforços, das nossas absurdas esperanças. Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos: é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se, ou tomam comprimidos; um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos, embora todos, excepto as crianças (e talvez até elas), saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e mais difíceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais.
Só Deus sabe porque amamos tanto isso."



Michael Cunningham, "As Horas"


2 comentários:

moço disse...

Li, assim de enfiada, há pouco tempo, o «Mrs. Dalloway», da Viriginia Woolf, e depois esta «As Horas»; e a seguir vi o filme. Embora de maneiras diferentes, gostei muito das três coisas. Esta passagem é muito bonita :)

E agora, para algo completamente diferente, um vídeo para os dias de chuva :)

http://www.youtube.com/watch?v=2_HXUhShhmY

natalie disse...

falta-me ler o "Mrs. Dalloway", é um projecto para o próximo mês, espero :)

adorei o vídeo! perfeito para dias como hoje :)