quarta-feira, dezembro 07, 2016
golo
"Não sei porque ainda penso em ti. Tanto tempo depois, e ainda me vens ao pensamento, por tudo e por nada. Como hoje, como agora, quando passava em frente ao café da minha rua e um grupo de gente gritou "Goolo!". Imaginei-te. Incrível como as imagens me aparecem, assim, do nada, contigo lá dentro. Custou-me tanto tirar-te daqui, da minha vida, da minha rua, da minha casa, da minha cama. Não sei como é que ainda penso em ti. Mas penso. Imaginei-te num café de beira de estrada, a luz amarelada, inclinado sobre a mesa, frente a uma cerveja e um prato de tremoços, a olhar para o ecrã verde, lá em cima. No balcão alguns homens, as garrafas de "minis", as cascas de tremoços e amendoins a serem atiradas ao chão, as vozes ao fundo, risos, discussões, a que estás ao mesmo tempo alheio e atento. E depois a rapariga, de decote generoso e calções curtos, que passa a varrer o que os homens sujaram, a discutir com eles, chama-te a atenção. Vejo-te a olhares para ela, de soslaio, como quem não olha, e nesse momento já estás a fervilhar. Apetece-te. Imagino-te a seres seduzido por aquela putazinha de subúrbio, ela a mostrar-se, a perguntar-se se queres mais alguma coisa, um sorriso e olhar que dizem tudo. E depois... Depois paro de imaginar. Não quero ver o que vem a seguir. O que suspeitei várias vezes. Os sinais que trazias. Mais do que o sexo, magoou-me a mentira. É talvez por isso que ainda penso em ti. Depois de ti, deixei de confiar."
sexta-feira, novembro 11, 2016
segunda-feira, outubro 24, 2016
sombras
Quase não te lembras
do rasto do seu corpo
e no entanto pesam-te
as suas palavras
como o eco duma avalanche
que se aproxima.
do rasto do seu corpo
e no entanto pesam-te
as suas palavras
como o eco duma avalanche
que se aproxima.
Não existes, não és nada,
não imagines amor
onde apenas há sombras.
não imagines amor
onde apenas há sombras.
És a estrada secundária
o desvio de um dia sem pressas
para alguém que brinca
a mudar de destino
mas leva uma bússola
e volta sempre a casa.
o desvio de um dia sem pressas
para alguém que brinca
a mudar de destino
mas leva uma bússola
e volta sempre a casa.
Ana Merino
Tradução Maria Sousa
Tradução Maria Sousa
sábado, outubro 22, 2016
segunda-feira, outubro 17, 2016
tréguas
Este poema é para ti.
é uma oferta de tréguas
dizendo que
nada no teu coração negro
me poderá assustar.
Olhei tempo demais
para o meu próprio coração.
Obrigada pela dádiva
das tuas incertezas.
é uma oferta de tréguas
dizendo que
nada no teu coração negro
me poderá assustar.
Olhei tempo demais
para o meu próprio coração.
Obrigada pela dádiva
das tuas incertezas.
Eunice de Souza
domingo, setembro 25, 2016
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