terça-feira, março 10, 2015

A NOSSA VEZ
É o frio que nos tolhe ao domingo
no inverno, quando mais rareia
a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar
e entram clandestinas no poema.
São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos
atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera
e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva
nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer
a nossa vez.


Rui Pires Cabral

quinta-feira, março 05, 2015

litania



Estava sentado numa sala anexa ao bloco operatório
e uma enfermeira passou com o teu útero num saco de plástico
transparente
Com o teu útero com a minha primeira casa e a de meus irmãos
ainda escorrendo sangue
Uma pequena construção toda em pedra
com divisões de tijolo e cal hidráulica
e janelas abrindo para o vale
Com o teu útero
Com a memória do pão depois de levedado e da tua saia comprida
cheia de farinha
Com a memória de uma gema de ovo
Com o teu útero
Com a memória de uns sapatos demasiado apertados
Com a memória do giz e do ferro a carvão e dos alinhavos
na minha alma antes de ser posta à prova
Com o teu útero
Com a memória de uma véspera de Natal das rabanadas e da aletria
e das águas que de súbito inundaram o soalho da cozinha
Com a memória agitada dessas águas
Com o teu útero
Com a memória de uma explosão de mimosas
Com a memória do cheiro a flor de laranjeira e a néroli
Com o teu útero
Que o anatomo-patologista dentro em pouco se encarregaria de
retalhar
com a lâmina do bisturi

Jorge Sousa Braga

segunda-feira, março 02, 2015

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

sem sentido



vaguear no deserto, a cor azul, três estrelas de orion, poemas partidos, fissuras fistulas fracturas,
mármore ao léu
o susto do frio, alcatrão molhado, lencóis desterrados
sangue esperma cuspe, música madrugada
escadas para o nada
não se pode passar, vazio interrompido, o longe é aqui
partir para partir
dois bocados, mil pedaços, morrer sem morrer
acordar, acordai
sede de mar, ponte, monte
fluido, cor de rosa, inchaço
beijo na bochecha, frágil filigrana, fica, fica
se amor não me engana
vaguear, vaguear, deserto, palavra, acção
suor, caminho, susto, intensa, intensa
a mão
orion, deserto, estrelas, poemas rasgados
o céu, fístula aberta, companhia, cicatriz
azul na terra
intensa, aberta
solidão.

quinta-feira, fevereiro 19, 2015

domingo, fevereiro 15, 2015

assertividade

esta semana estive a "ensinar" uma pessoa a não ter medo de parecer mal-educada por querer simplesmente defender os seus interesses e vontades.

disse-lhe que, por vezes, é mesmo necessário ser um pouco "mal-educada" para garantir firmeza perante uma outra parte que se está nas tintas para o que estamos a dizer, que só pensa em si mesma.

que principalmente as mulheres, mas não só, são educadas para agradar e ceder, para não ficar mal perante os outros, e que quando quebramos esse padrão é normal que nos sintamos mal ou diferentes ou "mal-educadas".

no entanto, há mesmo muita gente que acha que está a ser assertiva e está só a ser mal-educada, ou rude. há quem ache que está só a dizer o que pensa e está a ser grosseira. há quem ache que está a fazer um comentário crítico e está simplesmente a saltar conclusões.

recentemente fizeram-me um comentário que poderia ser confundido com assertividade mas foi simples má-educação baseada em inferências incorrectas.

a meu favor, consegui resistir à tentação de justificar e corrigir a falácia.

mas ainda tenho de fazer muitas "respirações" para evitar dar informação a mais a quem não merece sequer saber o meu nome do meio.


enfim.


terça-feira, fevereiro 10, 2015