segunda-feira, novembro 02, 2009
sexta-feira, outubro 30, 2009
quinta-feira, outubro 29, 2009
A aula
"Púchkov disse:
- A mulher é uma máquina do amor.
E apanhou logo com um murro nas ventas.
- Para que foi isso? - perguntou Púchkov.
Mas como não obteve resposta, continuou:
- O que eu penso é o seguinte: a mulher deve ser abordada por baixo. Efectivamente, as mulheres gostam disso e apenas fingem não gostar.
Nesse momento Púchkov levou outra vez nas ventas.
- Mas o que é isto, camaradas? Se continuam assim, eu interrompo já a aula - declarou Púchkov.
Porém, após uma pausa de uns quinze segundos, prosseguiu:
-A mulher é feita de tal maneira que é muito suave e húmida.
Neste momento Púchkov levou outra vez nas ventas.
Tentou fingir que não tinha reparado e continuou:
- Basta cheirarmos uma mulher...
Mas neste momento Púchkov apanhou tremenda murraça nas ventas que levou a mão à cara e declarou:
- Camaradas, é absolutamente impossível dar uma aula nestas condições. Se voltar a acontecer, suspendo-a.
Púchkov aguardou uns segundos e prosseguiu:
- Ora, onde íamos nós? Ah, pois. Temos portanto que a mulher gosta de se olhar. Senta-se diante do espelho toda nua...
Àquela palavra, Púchkov levou mais um murro nas ventas.
- Toda nua! - repetiu Púchkov.
Trás! Apanha ele nas ventas.
- Toda nua! - gritou Púchkov.
Trás! Leva ele nas ventas.
- Nua! Nua! Uma mulher nua! Uma gaja toda nua! - pôs-se Púchkov aos gritos.
Trás! Trás! Trás! Apanha ele nas ventas.
- Uma gaja toda nua com um tacho na mão!
Trás! Trás! choviam as pancadas em cima de Púchkov.
- O olho do cu de uma gaja! - gritava Púchkov, desviando-se da pancada. - Uma freira nua!
Mas neste momento Púchkov levou com tanta violência que perdeu os sentidos e caiu por terra, como que abatido.
12 de Outubro de 1940
- A mulher é uma máquina do amor.
E apanhou logo com um murro nas ventas.
- Para que foi isso? - perguntou Púchkov.
Mas como não obteve resposta, continuou:
- O que eu penso é o seguinte: a mulher deve ser abordada por baixo. Efectivamente, as mulheres gostam disso e apenas fingem não gostar.
Nesse momento Púchkov levou outra vez nas ventas.
- Mas o que é isto, camaradas? Se continuam assim, eu interrompo já a aula - declarou Púchkov.
Porém, após uma pausa de uns quinze segundos, prosseguiu:
-A mulher é feita de tal maneira que é muito suave e húmida.
Neste momento Púchkov levou outra vez nas ventas.
Tentou fingir que não tinha reparado e continuou:
- Basta cheirarmos uma mulher...
Mas neste momento Púchkov apanhou tremenda murraça nas ventas que levou a mão à cara e declarou:
- Camaradas, é absolutamente impossível dar uma aula nestas condições. Se voltar a acontecer, suspendo-a.
Púchkov aguardou uns segundos e prosseguiu:
- Ora, onde íamos nós? Ah, pois. Temos portanto que a mulher gosta de se olhar. Senta-se diante do espelho toda nua...
Àquela palavra, Púchkov levou mais um murro nas ventas.
- Toda nua! - repetiu Púchkov.
Trás! Apanha ele nas ventas.
- Toda nua! - gritou Púchkov.
Trás! Leva ele nas ventas.
- Nua! Nua! Uma mulher nua! Uma gaja toda nua! - pôs-se Púchkov aos gritos.
Trás! Trás! Trás! Apanha ele nas ventas.
- Uma gaja toda nua com um tacho na mão!
Trás! Trás! choviam as pancadas em cima de Púchkov.
- O olho do cu de uma gaja! - gritava Púchkov, desviando-se da pancada. - Uma freira nua!
Mas neste momento Púchkov levou com tanta violência que perdeu os sentidos e caiu por terra, como que abatido.
12 de Outubro de 1940
Daniil Kharms, "Três horas esquerdas"
(Marionet 2001)
segunda-feira, outubro 26, 2009
sexta-feira, outubro 23, 2009
A Velhice do Padre Eterno
«Jehovah, por alcunha antiga o Padre Eterno
Deus muitissimo padre e muito pouco eterno,
Teve uma ideia suja, uma ideia infeliz:
Poz-se a esgaravatar co-o dedo no nariz,
Tirou d'esse nariz o que um nariz encerra,
Deitou depois isso cá baixo, e fez a terra.
Em seguida tirou da cabeça o chapeu,
Pol-o em cima da terra, e zás, formou o céo.
Mas o chapéu azul do Padre Omnipotente
Era um velho penante, um penante indecente,
Já muito carcomido e muito esburacado,
E eis ahi porque o céo ficou todo estrellado.
Depois o Creador (honra lhe seja feita!)
Achou a sua obra uma obra imperfeita,
Mundo serrafaçal, globo de fancaria,
Que nem um aprendiz de Deus assignaria,
E furioso escarrou no mundo sublumar,
E a saliva ao cahir na terra fez o mar.
Depois, para que a Egreja arranjasse entre os povos
Com bulas da cruzada alguns cruzados novos,
E Tartufo podesse inda d'essa maneira
Jejuar, sem comer de carne á sexta feira,
Jehovah fez então para a crença devota
A enguia, o bacalhau e a pescada marmota.
Em seguida metteu a mão pelo sovaco,
Mais profundo e maior que a caverna de Caco,
E arrancando de lá parasitas extranhos,
De toda a qualidade e todos os tamanhos
Lançou sobre a terra, e d'este modo insonte
Fez elle o megatheiro e fez o mastodonte.
Depois, para provar em summa quanto póde
Um Creador, tirou dois pellos do bigode,
Cortou-os em milhões e milhões de bocados,
(Obra em que elle estragou quatrocentos machados)
Dispersou-os no globo, e foi d'esta maneira
Que nasceu o carvalho o platano e a palmeira.
Por fim com barro vil, assombro da olaria!
O que é que imaginaes que o Creador faria?
Um pote? não; um bicho, um bipede com rabo,
A que uns chamam Adão e outros Simão. Ao cabo
O pobre Creador sentindo-se já fraco.
(Coitado, tinha feito o universo e um macaco
Em seis dias!) pensou: — Deixem-nos de asneiras.
Trago já uma dôr horrivel nas cadeiras,
Fastio... Isto dá cabo até d'uma pessoa...
Nada, toca a dormir uma sonata boa!
Descalçou-se, tirou os oc'los e chinó,
Pitadeou com delicia alguns trovões em pó,
Abriu, para cahir n'um somno repentino,
O alfarrabio chamado o livro do Destino.
E enflanelando bem a carcassa caduca,
Com o barrete azul celeste até á nuca,
Fez ortodoxamente o seu signal da cruz
Como qualquer de nós, tossiu, soprou á luz,
E de pança p'ro ar, n'um repoiso bemdicto,
Espojou-se, estirou-se ao longe do infinito
N'um immenso enxergão de nevoa e luz doirada.
E até hoje, que eu saiba, inda não fez mais nada.»
Guerra Junqueiro
(também não conhecia. ;-) )
Deus muitissimo padre e muito pouco eterno,
Teve uma ideia suja, uma ideia infeliz:
Poz-se a esgaravatar co-o dedo no nariz,
Tirou d'esse nariz o que um nariz encerra,
Deitou depois isso cá baixo, e fez a terra.
Em seguida tirou da cabeça o chapeu,
Pol-o em cima da terra, e zás, formou o céo.
Mas o chapéu azul do Padre Omnipotente
Era um velho penante, um penante indecente,
Já muito carcomido e muito esburacado,
E eis ahi porque o céo ficou todo estrellado.
Depois o Creador (honra lhe seja feita!)
Achou a sua obra uma obra imperfeita,
Mundo serrafaçal, globo de fancaria,
Que nem um aprendiz de Deus assignaria,
E furioso escarrou no mundo sublumar,
E a saliva ao cahir na terra fez o mar.
Depois, para que a Egreja arranjasse entre os povos
Com bulas da cruzada alguns cruzados novos,
E Tartufo podesse inda d'essa maneira
Jejuar, sem comer de carne á sexta feira,
Jehovah fez então para a crença devota
A enguia, o bacalhau e a pescada marmota.
Em seguida metteu a mão pelo sovaco,
Mais profundo e maior que a caverna de Caco,
E arrancando de lá parasitas extranhos,
De toda a qualidade e todos os tamanhos
Lançou sobre a terra, e d'este modo insonte
Fez elle o megatheiro e fez o mastodonte.
Depois, para provar em summa quanto póde
Um Creador, tirou dois pellos do bigode,
Cortou-os em milhões e milhões de bocados,
(Obra em que elle estragou quatrocentos machados)
Dispersou-os no globo, e foi d'esta maneira
Que nasceu o carvalho o platano e a palmeira.
Por fim com barro vil, assombro da olaria!
O que é que imaginaes que o Creador faria?
Um pote? não; um bicho, um bipede com rabo,
A que uns chamam Adão e outros Simão. Ao cabo
O pobre Creador sentindo-se já fraco.
(Coitado, tinha feito o universo e um macaco
Em seis dias!) pensou: — Deixem-nos de asneiras.
Trago já uma dôr horrivel nas cadeiras,
Fastio... Isto dá cabo até d'uma pessoa...
Nada, toca a dormir uma sonata boa!
Descalçou-se, tirou os oc'los e chinó,
Pitadeou com delicia alguns trovões em pó,
Abriu, para cahir n'um somno repentino,
O alfarrabio chamado o livro do Destino.
E enflanelando bem a carcassa caduca,
Com o barrete azul celeste até á nuca,
Fez ortodoxamente o seu signal da cruz
Como qualquer de nós, tossiu, soprou á luz,
E de pança p'ro ar, n'um repoiso bemdicto,
Espojou-se, estirou-se ao longe do infinito
N'um immenso enxergão de nevoa e luz doirada.
E até hoje, que eu saiba, inda não fez mais nada.»
Guerra Junqueiro
(também não conhecia. ;-) )
quinta-feira, outubro 22, 2009
guerreiro
quarta-feira, outubro 21, 2009
às voltas com a vida
Artur Vaz Oliveira
(...)
Presa à liberdade
Encontramos a Susana a ensaiar o seu número, suspensa num cabo e bem próxima do topo do chapitô. O aparato é uma estrutura metálica em forma de lágrima onde se fazem algumas exibições de contorcionismo.
Apesar de trabalhar nas alturas com as fitas e a corda, Susana mostra algum receio. Não tem muita prática neste número e o aparato, construído para uma pessoa de maior estatura, traz-lhe alguma insegurança. Esforça-se por ensaiar uma coreografia onde se sinta mais à vontade. "Mais logo, com a casa cheia, tudo será mais fácil, é o público que nos faz... e o trabalho... claro...!" É aplicada e exigente. O filho, Aníbal, com 4 anos, observa, atento, e pede-lhe que não caia.
A Susana é o Circo. São 34 anos de entrega a um amor seguro e, ainda que a razão, por instantes, a tenha empurrado por outros caminhos, confessa que é no palco “onde me sinto em casa. Mesmo com 40 graus de febre estou lá a picar o ponto, preciso das pessoas, dos aplausos. O Circo será sempre a minha vida”.
Perfeccionista, sente falta das pequenas "multas" aplicadas pela direcção do circo há uns anos atrás: "não se deve entrar em palco de uma forma descuidada... é imperdoável que alguém se apresente com uma meia rota ou um fato sujo!" (...)
Texto: Artur Vaz Oliveira/Natália Cardoso; Fotos: Artur Vaz Oliveira
ler o texto completo aqui.
(Nota: Quando "entrei" neste projecto já o Artur tinha feito um belo trabalho de campo do qual resultaram as fotos e as descrições do que viu e conversou com os artistas. A minha contribuição cingiu-se a alguns aspectos históricos sobre o circo.)
Encontramos a Susana a ensaiar o seu número, suspensa num cabo e bem próxima do topo do chapitô. O aparato é uma estrutura metálica em forma de lágrima onde se fazem algumas exibições de contorcionismo.
Apesar de trabalhar nas alturas com as fitas e a corda, Susana mostra algum receio. Não tem muita prática neste número e o aparato, construído para uma pessoa de maior estatura, traz-lhe alguma insegurança. Esforça-se por ensaiar uma coreografia onde se sinta mais à vontade. "Mais logo, com a casa cheia, tudo será mais fácil, é o público que nos faz... e o trabalho... claro...!" É aplicada e exigente. O filho, Aníbal, com 4 anos, observa, atento, e pede-lhe que não caia.
A Susana é o Circo. São 34 anos de entrega a um amor seguro e, ainda que a razão, por instantes, a tenha empurrado por outros caminhos, confessa que é no palco “onde me sinto em casa. Mesmo com 40 graus de febre estou lá a picar o ponto, preciso das pessoas, dos aplausos. O Circo será sempre a minha vida”.
Perfeccionista, sente falta das pequenas "multas" aplicadas pela direcção do circo há uns anos atrás: "não se deve entrar em palco de uma forma descuidada... é imperdoável que alguém se apresente com uma meia rota ou um fato sujo!" (...)
Texto: Artur Vaz Oliveira/Natália Cardoso; Fotos: Artur Vaz Oliveira
ler o texto completo aqui.
(Nota: Quando "entrei" neste projecto já o Artur tinha feito um belo trabalho de campo do qual resultaram as fotos e as descrições do que viu e conversou com os artistas. A minha contribuição cingiu-se a alguns aspectos históricos sobre o circo.)
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