domingo, março 25, 2012

chuva

(...)
"Ela abriu a porta e ficou a olhar a chuva, súbita e grossa, que parecia uma cortina de aço. Apeteceu-lhe, de repente, correr à chuva. E, num abrir e fechar de olhos, despojou-se das meias, depois do vestido e das roupas interiores. Ele susteve a respiração. Os seios longos e bicudos, animalmente vivos, que vibravam e saltitavam com os  movimentos de Connie. A sua pele era cor de marfim, sob aquela luz esverdeada. Voltou a calçar os sapatos de borracha, lançou-se, com uma gargalhada louca, numa corrida por entre a chuva pesada erguendo os seios, abrindo os braços em movimentos rítmicos de dança que aprendera muitos anos antes em Dresden. Era uma figura estranhamento pálida, levantando-se, baixando-se, curvando-se. A chuva caía e brilhava nas suas ancas fortes, erguendo-se de novo e correndo com o ventre exposto à chuva, depois vergava-se de novo para que apenas o seu torso amplo e as suas nádegas fossem oferecidas ao homem numa espécie de homenagem, repetindo um preito selvagem.

Ele riu de um modo estranho e despiu-se. Era de mais! Com um leve tremor, desatou a correr exibindo a sua branca nudez na chuva que caía a bátegas e obliquamente. Flossie saltou à frente dele, soltando um latido de alegria. Connie, com o cabelo encharcado e colado à cabeça, voltou o rosto corado e viu-o. Os seus olhos azuis brilhavam de excitação ao mesmo tempo que se voltava e começou a correr depressa com um movimento invulgar pela clareira e pelo caminho abaixo, açoitada pelos ramos encharcados. Corria, mas ele não via mais do que a cabeça dela, encharcada, umas costas molhadas inclinadas para a frente, parecia que voava, e as nádegas roliças reluziam. Uma nudez feminina, receosa e bela, em fuga.

Estava quase a chegar à larga pista, para passeios a cavalo, quando ele conseguiu alcançá-la, colocando o seu braço nu em torno da cintura macia e molhada. Ela deu um grito, endireitou-se e a sua carne suave e macia esbarrou contra o corpo dele. Manteve então voluptuosamente todo colado a ele aquele corpo feminino, macio e frio, que ia aquecendo rapidamente, enquanto as mãos do homem o comprimiam. A chuva escorria pelos seus corpos, que fumegavam. Apertou com ambas as mãos o adorável e macio traseiro de Connie, contra si, com frenesim, tremendo, imóvel sob a chuva. Deitou-a num terreno a meio do atalho, no silêncio ruidoso da chuva, possuiu-a num abraço violento e rápido, num ápice, como um animal. Levantou-se quase imediatamente, limpando a chuva dos olhos.
-- Vamos para dentro -- disse.
Ele corria veloz, seguindo em direcção à cabana, não gostava da chuva. Ela avançava mais devagar, enquanto ia apanhando uma molhada de miosótis e campainhas, corria de vez em quando e ficava a vê-lo fugir dela. (...)"



D.H. Lawrence
O Amante de Lady Chatterley
Europa-América

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