terça-feira, junho 16, 2015

necessária

Divagação sobre a palavra dormir


Gostava de te olhar a dormir
mesmo que isso nunca aconteça.
Gostava de te olhar,
a dormir. Gostava de dormir
contigo, entrar
no teu sono, sentir seu fluxo suave e nebuloso
a deslizar sobre a minha cabeça
e caminhar contigo nessa floresta luminosa
ondulante de folhas fluorescentes
com um sol aquoso e três luas
até à caverna onde terás que descer,
em direcção ao teu pior medo
Gostava de te oferecer o ramal de prata,
a pequenina flor branca, aquela
palavra que te protegerá
da dor a meio
do teu sonho, do desgosto
central. Gostava de te acompanhar
até ao cimo da longa escadaria
mais uma vez e de ser
o barco para te transportar de volta
com cuidado, uma chama
entre duas mãos em concha
onde o teu corpo se deita
ao lado do meu, e tal como nele entras
com a facilidade com que se respira
Gostava de ser o ar
que te habita durante um breve
momento. Gostava de ser tão imperceptível
e tão necessária.


Margaret Atwood, tradução de Ana Teixeira 


domingo, junho 07, 2015

suave


Paul Gauguin - Here We Make Love, 1893



quinta-feira, maio 14, 2015

decido eu.

Não digas ao que vens. Deixa-me
adivinhar pelo pó nos teus cabelos
que vento te mandou. É longe a
tua casa? Dou-te a minha: leio nos
teus olhos o cansaço do dia que te
venceu; e, no teu rosto, as sombras
contam-me o rosto da viagem. Anda,
vem repousar os martírios da estrada
nas curvas do meu corpo — é um
destino sem dor e sem memória. Tens
sede? Sobra da tarde apenas uma
fatia de laranja — morde-a na minha
boca sem pedires. Não, não me digas
quem és nem ao que vens. Decido eu.

Maria do Rosário Pedreira

terça-feira, abril 07, 2015

quarta-feira, abril 01, 2015

hole


Alexander Calder

domingo, março 29, 2015

ansiedade

...é mais ou menos isto:


http://snapdraws.tumblr.com/post/50082858616/apologies-for-the-terrible-image-quality-im




(com o tempo e muito trabalho interior vamos aprendendo a controlar alguns pensamentos intrusivos, e consegue-se desdramatizar o dia a dia, principalmente quando se consegue recorrer ao humor. mas há ciclos, momentos em que somos lembrados que ela está aí, como um braço mais curto, ou um outro qualquer handicap. 

sim, é por isso que pareço sempre um pouco tensa, que parece que dou importância a coisas insignificantes.
mas, sabes, uma pessoa como eu é mesmo assim. :) a única coisa a fazer é aceitar. e estar vigilante. sempre. cansa muito. 

é mais fácil perceber um problema físico, o tal braço mais curto que não chega onde queremos, mas é visível para todos e por isso não precisamos explicar nada. com a ansiedade ou a depressão é diferente. ninguém vê. e dar-lhe visibilidade implica falar no que se sente, o que pode ser pesado, aborrecido para os outros.
é por isso que calamos. e ficamos mais tristes.

aceitar é a chave. 
mas sinto às vezes que não basta eu aceitar. 
perceber que os outros (me) aceitam também faz falta.)


sexta-feira, março 27, 2015

três


Kees van Dongen