Walker Evans
quinta-feira, abril 18, 2013
sábado, abril 13, 2013
sexta-feira, abril 05, 2013
um homem
anda aqui um homem
anda aqui um homem a fazer uma vida toda a vida e a vida que um homem faz é outra coisa sempre outra coisa e às vezes nem vida nem nada só um andar por cá a por pés à frente de outros pés e palavras à frente disto e disto e disto ainda um homem é fraca e constante coisa um homem é o que se vai arranjando um homem é daqui para o chão e olhos virados ao céu ou ao amor que é um céu de quem é triste quem me apanha o que trago pesado quem me acha no meio disto agora a noite e um silêncio grande de nem pensar nem a dor agora nem dedos à procura de mãos soltas as mãos vão por elas putas de só sentir como nervo descarnado entrando por um abrigo e com isto perdi-me e já não sei e o amor sei lá eu não me fodam com isso o amor é salvar quem não precisa de salvação
ponto
final
Nuno Camarneiro
Acordar um dia
quinta-feira, abril 04, 2013
quarta-feira, março 27, 2013
sexta-feira, março 22, 2013
a ferver
foto: Artur Vaz Oliveira
a menina júlia sentou-se na habitual mesa de café. cruzou suavemente as pernas e esperou. os olhos perdidos a esvoaçar contra os vidros baços. apesar de ser quase verão, pediu chá.
monsieur jean, sempre delicado, serviu-a. com gestos precisos pousou cuidadosamente a chávena, o pratinho de biscoitos e o bule. elevou o bule e libertou o líquido quente em direcção à chávena. quando terminou, olhou-a nos olhos,"bom apetite".
a menina júlia olhou-o enquanto se afastava. as costas elegantes, as nádegas perfeitas, o andar altivo e seguro. sentiu-se quente, a ferver, como o chá que bebia. quis tocar-lhe. imaginou-o nu. "uma senhora não devia pensar nestas coisas", e quase se queimava. mas já há algum tempo que a menina júlia tinha deixado de querer fingir que era "esse tipo de senhora".
voltou a olhar, discreta, para o rabo de monsieur jean, os movimentos corporais de um bailarino. imaginou-o num salão de dança, as mulheres todas à sua volta, e ele a rodopiar com ela, em passos de salsa e merengue, samba, chá-chá-chá. o peito firme, as ancas a moverem-se livres, os olhos sempre nos dela, a mão suave, pousada nas suas costas, a conduzi-la por toda a sala. de repente, num passo de tango, as pernas de ambos entrelaçam-se, ele leva-a próximo do chão e num ápice, sempre firme, puxa-a para cima, os rostos próximos, o peito dela colado ao dele, o coração aflito, a respiração ofegante.
a menina júlia, olhos baços contra os vidros do café, face ruborizada, pernas apertadas, o corpo a arder com a sua imaginação. mas, de repente, pensou se toda a delicadeza de monsieur jean não seria falsa. se na intimidade não se revelaria bruto, rápido, sem interesse em agradar-lhe, como se desprezasse o que já estava conquistado. seria monsieur jean um don juan por revelar? um desses homens a quem só a conquista dá tesão e depois murcham?
tudo isto pensava a menina júlia enquanto terminava o chá. e tudo desapareceu rapidamente do seu pensamento quando o marido, finalmente, entrou no café.
sentou-se ao lado dela, pousou um beijo suave na sua mão, "que pensativa!", disse ele. ela sorriu baixando os olhos. depois, aproximou-se dele e murmurou "pensava em ti", enquanto lhe mordiscava, leve e ternamente, o lóbulo da orelha.
(um dos textos muito livres, que me apareceram a partir do trabalho de laboratório para a personagem "menina júlia", de strindberg, em 2011)
terça-feira, março 19, 2013
sentimentos secretos
"Não parece haver segredos nos dias de hoje. É moda dizer que se fala de tudo, seja em que contexto for. É elogiado aquele que depressa dá conta da sua vida íntima em revistas especializadas em escândalos. Processos em "segredo de justiça" surgem com pormenores nos media, como se houvesse um canal directo entre a investigação e alguns jornais. Na televisão os programas de entretenimento expõem a vida privada dos participantes, estimulados por apresentadores sequiosos de mais efeitos fáceis. Nas redes sociais, com destaque para o Facebook, inúmeros "Gosto" aplaudem novos relacionamentos amorosos ou rupturas mais ou menos sangrentas, no mesmo plano em que se aplaudem eventos públicos de qualidade duvidosa. Nas famílias fala-se cada vez menos. Em muitas casas desapareceu o jantar em conjunto, o pequeno-almoço partilhado ou a reunião familiar de fim-de-semana, mas pais espiam os computadores dos filhos e homens e mulheres ciumentos tentam desvendar supostas infidelidades nos telemóveis dos parceiros. Tudo se passa como se se tivesse perdido o limite que separa a esfera íntima do que pode ser partilhado com terceiros, como se não existissem barreiras ao nosso interior e ao que pretendemos (ou podemos) revelar.
Esta sociedade "aberta" não tem melhorado a partilha íntima no casamento, nem levado a uma relação mais aprofundada entre pais e filhos. No casal, é frequente que as diferenças de género tenham sido apagadas em nome de uma "democracia" relacional, como se homens e mulheres tivessem de ser sempre iguais e fosse necessário fazer tudo a dois. A verdade é que temos de procurar contactar com o íntimo do outro, mas ao mesmo tempo conservar a integridade psíquica e as nossas fantasias. Pais demasiado controladores geram nos filhos comportamentos secretos ou atitudes dissimuladoras: onde deveria estar o confronto leal, surge a mentira e a oposição.
No entanto, ninguém jamais poderá ser dono dos nossos pensamentos secretos. Quem poderá impedir que, por momentos, possamos viver noutro lugar? Quem calará o nosso desejo momentâneo e escondido de vivermos com outro companheiro? Esquecerei algum dia aquela ideia persistente e sobrevalorizada de que o meu cônjuge está a ser infiel?
Por mais que a sociedade tente destruir a intimidade, não o conseguirá. A verdade é que o outro é, na realidade, um terceiro, porque eu sou um, mas também um segundo que recebe a comunicação e a devolve. O que dizemos ao outro é apenas uma parte do que verdadeiramente se sente, porque é muito difícil pôr em palavras o nosso íntimo. E, para salvaguarda de muitas relações, não se pode mesmo dizer tudo em todos os momentos. E a partilha, embora necessária, não é fácil. O nosso companheiro está a apreciar uma música do mesmo modo? Numa relação sexual, a intensidade do que um sente é igual à do parceiro e deve ser comparada? O que quero fazer num determinado momento é para ser logo satisfeito com a pessoa com quem partilho a vida?
Os pensamentos secretos são a garantia da nossa integridade psíquica, por isso os doentes com esquizofrenia sofrem quando, dominados por ideias delirantes, acreditam que o seu pensamento é conhecido de todos. No entanto, nada permanece mais importante, nos dias de hoje, do que a tentativa séria de escutarmos e reconhecermos quem está próximo de nós."
Daniel Sampaio
Revista do Público, 17-3-2013
(sublinhado meu)
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