quarta-feira, março 01, 2017

muito longe

III

Não sei falar. Nunca soube. Fico exausta quando
falo. Todos vocês devem ficar a saber disto.
Nunca chego a dizer exactamente aquilo que
pretendo - fica sempre do outro lado do vidro.
Daí a poluição que me envolve. Um pranto.


Derivo das várias posições no mundo. Da
ignorância, de todos os poemas que comi, de
todos os livros, todos os ídolos (geralmente
esquisitos), todos os palcos e cinemas, balcões,
da família, de todos os amigos. Raros no mundo.
Valiosíssimos. Eu sou eles todos e as viagens que
nunca fiz. Sou tudo isso. Não há mais ou menos
importância em nada, especificamente - tudo isto
é o meu sangue no papel.

Tenho várias salivas. Vário géneros. Acumulei
rostos e corpos. E o teu, o teu, o teu, o teu e
ainda o teu, continuam guardados, para sempre,
em todos os meus lugares. Eu sou tudo o que
vocês fizeram de mim. E tu, meu amor, tu dormes
ainda na minha cama. Planetas nos olhos.
Tecendo melodias. Trazendo gengibre na boca.
Para a minha boca. O teu tear.

Importante é dizer-vos que trago fruta para
todos. Flores. Paciência. Coração. Mesa. Uma
lareira. Delícias. Espaço. Muito espaço.
Jacarandás para ti, Mário! Jacarandás para
sempre. Também para ti, todo o Rossio em
Junho. Abraços com força e ombro. Manta.
A minha intenção é dar-vos uma coisa impossível
à partida. Uma invenção.
E estou longe. Estou muito longe para mim.

Passa por aqui, várias vezes por dia, um único
pardal. E nem ele, mais solitário que eu, me
cumprimenta.

Patrícia Baltazar, in Fumar Mata, ed. Madrugadas

terça-feira, fevereiro 21, 2017

parque subterrâneo

estaciono. fecho os olhos. deixo-me cair no banco ao lado. como se fosse possível, com um fechar de olhos, apagar tudo. não é. procuro dentro de mim o "verão invencível", um consolo, uma palavra mágica. fecho os olhos.
uma laranja na serra da estrela. a fusão com o mar. ruelas de barcelona. uma rua em viseu. um instante antes de entrar em palco. um gelado em ljubljana. uma conversa à beira rio. todos os sorrisos que recebi. o sol. a bahia de todos os santos. as oliveiras da cerca. as portas abertas na páscoa. as ruelas da alta. o suryanamaskar. todo o amor que me dão. todo o amor que dou.
todas as palavras não ditas. não ouvidas. a incompreensão.
sinto-me presa.
regresso.
está tudo aqui ao mesmo tempo.
para romper o casulo.
outra vez.

sábado, fevereiro 18, 2017








preciso de uma alegria 
muito 
grande





quarta-feira, fevereiro 01, 2017

acordar

Com a tua letra

Fala-se de amor para falar de muitas
coisas que entretanto nos sucedem.
Para falar do tempo, para falar do mundo
usamos o vocabulário preciso
que nos dá o amor.
Eu amo-te. Quer dizer: eu conheço melhor
as estradas que servem o meu território.
Quer dizer: eu estou mais acordado,
não me enredo nas silvas, não me enredo,
não me prendo nos cardos, não me prendo.
Quer também dizer: amar-te-ei
cada dia mais, estarei cada dia
mais acordado. Porque este amor não pára.
E para falar da morte; da enorme
definitiva irremediável morte,
do carro tombado na valeta
sacudindo uma última vez (fragilidade)
as rodas acendedoras de caminhos
- eu lembraria que o amor nos dá
uma forma difícil de coragem,
uma difícil, inteira possessão
de nós próprios, quando aveludada
a morte surge e nos reclama.
Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.


Fernando Assis Pacheco

segunda-feira, janeiro 30, 2017

louise


Louise Brooks in ‘Pandora’s Box, directed by G. W. Pabst, 1928

terça-feira, janeiro 10, 2017

amor.luta


ACONSELHO-VOS O AMOR

Aconselho-vos o amor:
o equilíbrio dos contrários.
Aconselho-vos o amor
cheio de força; os moinhos
girando ao vento desbridado.
Aconselho-vos a liberdade
do amor (que logo passa
- vão dizer-vos que não -
para os gestos diários).
ACONSELHO-VOS A LUTA.

Fernando Assis Pacheco

quinta-feira, janeiro 05, 2017