quarta-feira, janeiro 18, 2012

duas

Ellen Von Unwerth

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Malevich
Red Cavalry

domingo, janeiro 15, 2012

outra vez

“Os homens não choram”, tinha ouvido dizer numa outra vida. Mas ele chorava e chorava e chorava. O que era normal, afinal, tinha acabado de nascer. “Outra vez” pensava ele no seu choro, e foi o último minuto de pré-consciência que teve. Depois, esqueceu-se de tudo. De como tinha sido lá dentro, o quente e suave embalar do corpo que o hospedou, o vazio do mar materno que lhe deu alimento e o fez crescer, a protecção redonda do ventre, o conforto daquele pequeno universo que o envolveu. Até que.
Até que teve de sair. Era inevitável. Expulso do seu pequeno paraíso, tinha de se fazer à vida. “Outra vez” pensou, e em segundos, milhares de outros nascimentos passaram pelo seu pequeno cérebro. Era preciso cortar esse cordão umbilical com o passado. Era preciso esquecer todas as vezes que nasceu, que amou, que matou, que se enfureceu, que se comoveu, que perdoou e foi perdoado, que se arrependeu, que se ajoelhou perante o mistério; todas as pessoas que conheceu, as mãos que apertou, os corpos que amou, os filhos que teve, as pessoas amadas que perdeu para a morte; todos os minutos de silêncio e de exaltação, o êxtase e a angústia; a miséria e a riqueza, o trabalho e o ócio; esquecer o sal do mar, o calor do sol a queimar-lhe a pele, os bosques frescos, o cheiro dos animais, o som da lenha a crepitar, o sabor generoso dos frutos, a doçura do vinho; esquecer a música, a vitalidade da dança, a emoção de se sentir tocado por uma obra de arte, a emoção de construir, ou de ser ele próprio uma obra de arte.
Estava cá fora, a luz entrava-lhe baça pelos olhos ainda cegos, guiava-se pelo cheiro.
O cheiro do sangue, o cheiro da pele, o cheiro do alimento: Mãe.
Sem saber ainda dizer a palavra, sem saber que tantas e tantas vezes seria separado daquele conforto, já sabia que aquele corpo que o alimentava, aqueles braços que o envolviam, eram tudo o que precisava para se sentir outra vez lá dentro, protegido.
Cresceria. Conheceria o Pai, uma outra protecção. Com o tempo, aprenderia o que precisava para sobreviver. Teria prazer e tristezas. Sentiria o abandono. Reconheceria o amor. Travaria batalhas. Em algumas seria o seu próprio inimigo. Conheceria o cheiro da morte. Teria sonhos e desilusões. Seria pai e veria crescer os seus filhos.
“Outra vez” pensou naqueles ínfimos segundos antes de se perder de novo para a vida.
Passaria por tudo outra vez. Até voltar de novo para dentro do corpo de uma mulher.
Para nascer.
Outra vez.




Abrazo Amoroso
Frida Kahlo


quinta-feira, janeiro 12, 2012

dormindo


Sleeping Cupid
Caravaggio (1608)

sábado, janeiro 07, 2012

Not the intense moment

"Not the intense moment
Isolated, with no before and after,
But a lifetime burning in every moment
And not the lifetime of one man only
But of old stones that cannot be deciphered.
There is a time for the evening under starlight,
A time for the evening under lamplight
(The evening with the photograph album)
Love is most nearly itself
When here and now cease to matter.
Old men ought to be explorers
Here or there does not matter
We must be still and still moving
Into another intensity
For a further union, a deeper communion
Through the dark cold and the empty desolation,
The wave cry, the wind cry, the vast waters
Of the petrel and the porpoise. In my end is my beginning."


T.S. Eliot







sexta-feira, janeiro 06, 2012

deserto

Edward Weston




(não vale a pena fugir. às vezes a única coisa a fazer é entrar no deserto. percorre-lo, enfrentá-lo, superá-lo. deixar que nos percorra, nos toque, nos desafie, para que no imenso vazio da alma se encontre algum caminho.)

quarta-feira, janeiro 04, 2012

planos

o ano já começou


o plano é não fazer muitos planos


deixar acontecer


aceitar o sol e a chuva


e tudo o que vem


sem dramas


olhar para dentro e para fora com serenidade


ver o que é, com simplicidade e espanto


(perceber os pássaros as gotas de chuva na janela o vento a ondular uma cortina as árvores o mar a montanha o bater do coração o céu nocturno o amanhecer...)


admirar as crianças e os velhos


ter pensamentos generosos e bons para com os outros e para comigo


estar presente


respirar


correr, saltar, dançar, gritar, cantar


sorrir


fazer sorrir


amar


ser






(não planear muito, seguir a rota traçada pela vida; como numa dança, às vezes é preciso saber deixar-nos conduzir para que a nossa coreografia seja ainda mais bela e livre. )