sábado, maio 07, 2011
correio aéreo
tenho saudades de receber cartas, em papel, de as abrir e encontrar a caligrafia de alguém amigo, de me encontrar com a pessoa distante, através daquele objecto, tão pessoal, único.
hoje recebi, via internet, de um amigo que está longe, uma mensagem que se parece muito com uma carta.
e soube bem. é bom saber que somos lembrados, que fazemos falta. é bom retribuir as saudades.
quinta-feira, maio 05, 2011
o mais alto
Hoje, de repente, sem razão especial, lembrei-me dele.
De o ver junto à janela da divisão da casa a que se chamava escritório, a olhar para fora, silencioso. Olhava talvez para a montanha, talvez para as árvores (a nogueira, a ameixeira, a austrália nova, a figueira, mais atrás).
Do seu andar lento, das suas mãos fortes, do sorriso quando nos via, do seu beijo na testa, do abraço que dava ao meu pai sempre que se reencontravam ou se despediam.
De nos dizer coisas, às vezes estranhas, às vezes sabias, às vezes malandras, raramente banais.
Um dia citou-me um poema do Miguel Torga sobre a terra. Não me lembro do poema. Gostava muito de me lembrar, de o ter guardado comigo. Mas não me lembro.
O meu avô lia muito. Leu até deixar de conseguir ler.
Lembro-me quando ele ainda usava chapéu. De quando ainda dava passeios pela vinha. E de uma vez, numa caminhada familiar, talvez num domingo de Páscoa, o meu irmão começar a chorar, porque aquela podia ser a última caminhada em conjunto.
O meu avô era um homem alto. O mais alto.
Como os plátanos altos da aldeia que ele ajudou a plantar.
quinta-feira, abril 28, 2011
terça-feira, abril 26, 2011
Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me
sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater
os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava
os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira
Que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
E o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto
Quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera
um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos
a ver se contraía a febre do império
mas a única coisa que consegui apanhar
foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar
uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito
e idiota como tu
mas que tem o coração doce, ainda mais doce
que os pasteis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros
para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete
Salazar estava no poder
nada de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram
nada de ressentimentos
um dia bebi vinagre
nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas
a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho
Que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca
Jorge de Sousa Braga, O Poeta Nu
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me
sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater
os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava
os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira
Que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
E o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto
Quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera
um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos
a ver se contraía a febre do império
mas a única coisa que consegui apanhar
foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar
uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito
e idiota como tu
mas que tem o coração doce, ainda mais doce
que os pasteis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros
para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete
Salazar estava no poder
nada de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram
nada de ressentimentos
um dia bebi vinagre
nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas
a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho
Que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca
Jorge de Sousa Braga, O Poeta Nu
segunda-feira, abril 25, 2011
quinta-feira, abril 21, 2011
universo
Aceita o universo
Como to deram os deuses.
Se os deuses te quisessem dar outro
Ter-to-iam dado.
Se há outras matérias e outros mundos —
Haja.
Alberto Caeiro
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
Como to deram os deuses.
Se os deuses te quisessem dar outro
Ter-to-iam dado.
Se há outras matérias e outros mundos —
Haja.
Alberto Caeiro
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
terça-feira, abril 19, 2011
valsa triste
"Ribombou o piano; uma valsa triste esvoaçou da sala para as janelas abertas de par em par, e toda a gente se terá lembrado que lá fora era Primavera, uma noite de Maio. Toda a gente terá sentido que o ar cheirava a folhas novas de álamo, a rosas e lilases. Riabóvitch, em quem, sob o poder da música, falou o conhaque bebido, olhou de soslaio para a janela, sorriu e pôs-se a seguir os movimentos das mulheres, já lhe parecendo que o cheiro a rosa, a álamo e lilás não vinha do parque, emanava dos rostos e dos vestidos delas."
"O beijo"
Contos de A. Tchékhov
"O beijo"
Contos de A. Tchékhov
Subscrever:
Mensagens (Atom)


