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quinta-feira, dezembro 14, 2006

reminiscências (3)

"O fogo atirava sombras intensas contra a parede; o som do crepitar ao entregar mais um pedaço de lenha às chamas; as paredes de pedra, húmidas, a receber calor. Um gato entrou, vagaroso, miou e aninhou-se junto à lareira depois de ter roçado nas suas pernas. Uma panela com água borbulhava. De súbito, entre o fumo e as chamas, ela viu. Instintivamente levou as mãos aos olhos. Nítida, de novo, a visão de uma criança que grita, chora, chama. Era assim desde sempre, mas piorava quando ele estava por perto. O que a perturbava não era a visão, afinal, ela sempre via coisas que aos outros escapavam; o que a afligia era não saber o que fazer com aquilo."

segunda-feira, outubro 16, 2006

reminiscências (2)

"Subimos o caminho da montanha em silêncio. Apenas o som dos pés na folhagem, os ramos que cortámos, alguns pássaros. A casa ficava escondida entre árvores e penedos. Eu seguia à frente, abrindo um caminho tantas vezes percorrido por nós, num outro tempo. Abri a porta de madeira velha e um corvo fugiu por uma pequena janela ao sentir luz e movimento. Estava tudo como ela havia deixado. Olhámos, imóveis, sem capacidade para entrar e alterar o cenário com a nossa presença. Foi ele quem finalmente deu o primeiro passo. Ela ainda vivia ali, podíamos sentir o seu cheiro, e vê-la-iamos surgir a qualquer momento, com as suas ervas no avental; lançar-nos-ia o seu olhar astuto e juntando as nossas mãos nas dela, diria, como nos disse tantas vezes, "meus filhos, que pode esta velha fazer por vós?"

sexta-feira, agosto 04, 2006

reminiscências

"Ele vinha do sul, pois atravessou a ponte. O cavalo hesitou diante das tábuas trémulas da ponte de barcas. Ele olhou a cidade adormecida, benzeu-se, empurrou a capa para trás e fez o cavalo avançar. Ouvi os cascos no empedrado, percebi que era ele quem se apeava e se dirigia para a porta que tinha deixado aberta, à sua espera. Ofereci-lhe uma sopa quente e vinho. Em silêncio recordámos tempos passados e a promessa que fizemos de não voltar a pegar em armas.
Eu matei, disse-me. Não tenho perdão.
Quis dizer-lhe que estava perdoado, que todos, uma vez, já quebrámos as promessas que fizemos. Mas o sangue perseguia-o e nada do que lhe dissesse poderia juntar os pedaços do seu coração ferido. "