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terça-feira, julho 30, 2013

resolve fugir


noah kalina






Júlia está sentada na cama. A janela aberta faz entrar a luz nocturna da cidade, o vento ondula a cortina velha do quarto de João. Ele adormeceu, como sempre, depois do sexo. Júlia procura as cuecas, as calças e a t-shirt no chão do quarto. Veste-se devagar para não o acordar. Onde estão os brincos? Procura-os na mesa-de-cabeceira, debaixo da cama, na cómoda… Os brincos da Mamã, não posso perder… e finalmente, no chão da casa de banho, ao levantar as calças de João, um brilho de pérolas, Como raio foram parar ali?
Júlia põe os brincos, ajeita o cabelo frente ao espelho, lava a cara.
Nesta fase Júlia tem 21 anos, o cabelo curto, espetado, assimétrico, levemente punk, pintado de preto - Júlia é loira. Tem um piercing na língua e uma tatuagem de marinheiro no ombro esquerdo  - um coração vintage com a inscrição “amor de mãe” - que João detesta.  É vulgar, diz ele. Não mais vulgar que um golfinho ou uma borboleta, contestou Júlia, orgulhosa por ter a coragem de tatuar a coisa mais feia que encontrou. Fez de propósito, claro. Aliás, Júlia tem feito tudo para se tornar feia, para contrariar a ideia de princesinha loira. As roupas são o dobro do seu tamanho, calças de militar, t-shirts velhas.
João dorme e ela sai sem que ele se aperceba. Júlia nunca dorme com os homens com quem fode, mas João é o único que sabe disso e não se importa.
Lá fora, acende um cigarro. Quem a visse pensaria ser um homem. Entra no Jeep e segue para casa. Merda, são 4 da manhã, o que é que o Papá está a fazer acordado? - Ao ver luz na janela do salão. Hesita entre voltar para o quarto de João ou entrar em casa e ter “aquela conversa” com o pai. Abre a janela do Jeep e fuma mais um cigarro. Resolve fugir.
São 7 da manhã. Júlia percorreu a cidade, entrou numa discoteca, bebeu cerveja, dançou, voltou a sair, andou outra vez às voltas pela cidade, parou numa estação de serviço para comprar tabaco e antes de voltar para o Jeep, foi à caixa automática. Tinha dinheiro suficiente para fazer uma loucura. Naquela conta o pai não podia mexer, como fez das outras vezes. Atestou e partiu.


sexta-feira, março 22, 2013

a ferver


foto: Artur Vaz Oliveira



a menina júlia sentou-se na habitual mesa de café. cruzou suavemente as pernas e esperou. os olhos perdidos a esvoaçar contra os vidros baços. apesar de ser quase verão, pediu chá.

monsieur jean, sempre delicado, serviu-a. com gestos precisos pousou cuidadosamente a chávena, o pratinho de biscoitos e o bule. elevou o bule e libertou o líquido quente em direcção à chávena. quando terminou, olhou-a nos olhos,"bom apetite".

a menina júlia olhou-o enquanto se afastava. as costas elegantes, as nádegas perfeitas, o andar altivo e seguro. sentiu-se quente, a ferver, como o chá que bebia. quis tocar-lhe. imaginou-o nu. "uma senhora não devia pensar nestas coisas", e quase se queimava. mas já há algum tempo que a menina júlia tinha deixado de querer fingir que era "esse tipo de senhora".
voltou a olhar, discreta, para o rabo de monsieur jean, os movimentos corporais de um bailarino. imaginou-o num salão de dança, as mulheres todas à sua volta, e ele a rodopiar com ela, em passos de salsa e merengue, samba, chá-chá-chá. o peito firme, as ancas a moverem-se livres, os olhos sempre nos dela, a mão suave, pousada nas suas costas, a conduzi-la por toda a sala. de repente, num passo de tango, as pernas de ambos entrelaçam-se, ele leva-a próximo do chão e num ápice, sempre firme, puxa-a para cima, os rostos próximos, o peito dela colado ao dele, o coração aflito, a respiração ofegante.

a menina júlia, olhos baços contra os vidros do café, face ruborizada, pernas apertadas, o corpo a arder com a sua imaginação. mas, de repente, pensou se toda a delicadeza de monsieur jean não seria falsa. se na intimidade não se revelaria bruto, rápido, sem interesse em agradar-lhe, como se desprezasse o que já estava conquistado. seria monsieur jean um don juan por revelar? um desses homens a quem só a conquista dá tesão e depois murcham?

tudo isto pensava a menina júlia enquanto terminava o chá. e tudo desapareceu rapidamente do seu pensamento quando o marido, finalmente, entrou no café.
sentou-se ao lado dela, pousou um beijo suave na sua mão, "que pensativa!", disse ele. ela sorriu baixando os olhos. depois, aproximou-se dele e murmurou "pensava em ti", enquanto lhe mordiscava, leve e ternamente, o lóbulo da orelha.




(um dos textos muito livres, que me apareceram a partir do trabalho de laboratório para a personagem "menina júlia", de strindberg, em 2011)