sábado, junho 04, 2011

quarta-feira, junho 01, 2011

tempo de antena

Trabalho muito perto da delegação de um partido político e por isso necessariamente sou obrigada a conviver com a parafernália da campanha eleitoral. Há dias atrás, ao passar à frente do dito cujo local, estava estacionado um daqueles carros com altifalantes a vomitar promessas e cantigas foleiras. Uma senhora que ia à frente, ao ouvir dizer "mais apoios sociais para o concelho X"  olhou para trás, surpreendida, parecendo estar a pensar "como é possível fazerem promessas destas?" Cruzámos o olhar e não pude deixar de lhe sorrir, porque de certa forma parecia que tínhamos tido o mesmo pensamento. Foi o suficiente para ela abrandar o passo e vir a conversar comigo uma parte do caminho que fizemos juntas. Eu quase só ouvi.
Não estava revoltada, não disse que eram todos iguais, mas confirmou, de certa maneira, a surpresa que lhe vi na expressão quando ouviu as vozes da campanha com promessas irrealistas; falou de exploração, que até há trabalho mas se ganha muito pouco; que se consegue, com sacrifício, sobreviver, juntando "um bocadinho daqui, um bocadinho dali"; que se trabalha muito porque cada pessoa faz o trabalho de três; que veio de Cabo Verde há 10 anos e vive com a filha; que é difícil estudar quando se tem de trabalhar; que é preciso ter esperança.

Eu só ouvi.
Os políticos não ouvem as pessoas: falam com elas porque as querem convencer; e quando ouvem é para dar a volta e introduzir os seus argumentos, ou seja, manipular e doutrinar.
Talvez devessem ouvir mais as pessoas. Só ouvir. E depois pensar muito no que ouviram antes de fazer propostas que não têm em conta as pessoas e que insultam a sua inteligência.

domingo, maio 29, 2011

dia


Peder S. Kroyer



quinta-feira, maio 26, 2011






"Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?"




Lisbon Revisited (1923), Álvaro de Campos

sábado, maio 21, 2011

começar

Há momentos em que parece que tudo vai começar, somos invadidos pela energia do início, como se estivéssemos na linha de partida a aguardar o sinal do tiro que nos fará entrar em acção.

Conhecemos alguém diferente, temos uma conversa reveladora, iniciamos uma actividade nova ou um hábito bom, descobrimos um lugar, e de repente vê-mo-nos abertos a novos encontros, interacções, relacionamentos, vê-mo-nos a fazer outras coisas, com as mesmas e outras pessoas, a experimentar, a procurar, a ir mais longe no que somos e queremos ser.

No entanto, são também frequentes os falsos tiros. Achamos que vamos correr e afinal não saímos do lugar. Mantemos-nos na linha, em posição, concentrados, atentos ao futuro que parece vir ao nosso encontro ao mesmo tempo que nos preparamos para correr na sua direcção. Mas nem o tiro de partida soa, nem nós nos arriscamos a avançar, a quebrar as regras.
E a energia esgota-se, e ficamos sós, à espera.