sábado, junho 04, 2011
quarta-feira, junho 01, 2011
tempo de antena
Trabalho muito perto da delegação de um partido político e por isso necessariamente sou obrigada a conviver com a parafernália da campanha eleitoral. Há dias atrás, ao passar à frente do dito cujo local, estava estacionado um daqueles carros com altifalantes a vomitar promessas e cantigas foleiras. Uma senhora que ia à frente, ao ouvir dizer "mais apoios sociais para o concelho X" olhou para trás, surpreendida, parecendo estar a pensar "como é possível fazerem promessas destas?" Cruzámos o olhar e não pude deixar de lhe sorrir, porque de certa forma parecia que tínhamos tido o mesmo pensamento. Foi o suficiente para ela abrandar o passo e vir a conversar comigo uma parte do caminho que fizemos juntas. Eu quase só ouvi.
Não estava revoltada, não disse que eram todos iguais, mas confirmou, de certa maneira, a surpresa que lhe vi na expressão quando ouviu as vozes da campanha com promessas irrealistas; falou de exploração, que até há trabalho mas se ganha muito pouco; que se consegue, com sacrifício, sobreviver, juntando "um bocadinho daqui, um bocadinho dali"; que se trabalha muito porque cada pessoa faz o trabalho de três; que veio de Cabo Verde há 10 anos e vive com a filha; que é difícil estudar quando se tem de trabalhar; que é preciso ter esperança.
Eu só ouvi.
Os políticos não ouvem as pessoas: falam com elas porque as querem convencer; e quando ouvem é para dar a volta e introduzir os seus argumentos, ou seja, manipular e doutrinar.
Talvez devessem ouvir mais as pessoas. Só ouvir. E depois pensar muito no que ouviram antes de fazer propostas que não têm em conta as pessoas e que insultam a sua inteligência.
Não estava revoltada, não disse que eram todos iguais, mas confirmou, de certa maneira, a surpresa que lhe vi na expressão quando ouviu as vozes da campanha com promessas irrealistas; falou de exploração, que até há trabalho mas se ganha muito pouco; que se consegue, com sacrifício, sobreviver, juntando "um bocadinho daqui, um bocadinho dali"; que se trabalha muito porque cada pessoa faz o trabalho de três; que veio de Cabo Verde há 10 anos e vive com a filha; que é difícil estudar quando se tem de trabalhar; que é preciso ter esperança.
Eu só ouvi.
Os políticos não ouvem as pessoas: falam com elas porque as querem convencer; e quando ouvem é para dar a volta e introduzir os seus argumentos, ou seja, manipular e doutrinar.
Talvez devessem ouvir mais as pessoas. Só ouvir. E depois pensar muito no que ouviram antes de fazer propostas que não têm em conta as pessoas e que insultam a sua inteligência.
domingo, maio 29, 2011
sábado, maio 28, 2011
o corpo é uma arma
(...)
"No final, quando despi a toga, senti que os quarenta aprendizes de polícia que assistiam ao julgamento me olharam como fêmea. O juiz foi cortês na despedida e, pareceu-me, se pudesse, teria lambido o meu braço. Acabei o dia, enfiada num pijama puído, a fumar no estendal, com a certeza de que não há nada melhor do que nos quererem pelo nosso corpo. O corpo é uma arma."
ana de amsterdam
"No final, quando despi a toga, senti que os quarenta aprendizes de polícia que assistiam ao julgamento me olharam como fêmea. O juiz foi cortês na despedida e, pareceu-me, se pudesse, teria lambido o meu braço. Acabei o dia, enfiada num pijama puído, a fumar no estendal, com a certeza de que não há nada melhor do que nos quererem pelo nosso corpo. O corpo é uma arma."
ana de amsterdam
quinta-feira, maio 26, 2011
segunda-feira, maio 23, 2011
"sempre a mesma merda"
"As gajas temos que entender, desculpar e até agradecer as bocas dos trolhas, o elogio do chefe às nossas pernas, a graçola cómica do desconhecido sobre as nossas mamas, como estamos giras com esse vestido. Sempre a mesma merda. Se usamos decotes é porque queremos ser comidas. Se andamos com passo seguro com uma mini-saia temos que estar preparadas para ser galadas por um imbecil qualquer. Se cruzamos as penas no autocarro mais nos vale aguentar o olhar lascivo do idiota que está à nossa frente. A mim não me apetece um caralho ouvir mais supostos elogios de gajos merdosos, dá-me asco. Eu não sou uma égua. Sou uma igual por muito que lhes doa e incomode a uma importante percentagem da população masculina. Porque quem acha que tem direito a comer-me com os olhos pensa que em algum momento também pode levantar-me a saia e foder-me ali mesmo. Para todos vocês, seus merdas, fodei-vos!"
rititi
sábado, maio 21, 2011
começar
Há momentos em que parece que tudo vai começar, somos invadidos pela energia do início, como se estivéssemos na linha de partida a aguardar o sinal do tiro que nos fará entrar em acção.
Conhecemos alguém diferente, temos uma conversa reveladora, iniciamos uma actividade nova ou um hábito bom, descobrimos um lugar, e de repente vê-mo-nos abertos a novos encontros, interacções, relacionamentos, vê-mo-nos a fazer outras coisas, com as mesmas e outras pessoas, a experimentar, a procurar, a ir mais longe no que somos e queremos ser.
No entanto, são também frequentes os falsos tiros. Achamos que vamos correr e afinal não saímos do lugar. Mantemos-nos na linha, em posição, concentrados, atentos ao futuro que parece vir ao nosso encontro ao mesmo tempo que nos preparamos para correr na sua direcção. Mas nem o tiro de partida soa, nem nós nos arriscamos a avançar, a quebrar as regras.
E a energia esgota-se, e ficamos sós, à espera.
Conhecemos alguém diferente, temos uma conversa reveladora, iniciamos uma actividade nova ou um hábito bom, descobrimos um lugar, e de repente vê-mo-nos abertos a novos encontros, interacções, relacionamentos, vê-mo-nos a fazer outras coisas, com as mesmas e outras pessoas, a experimentar, a procurar, a ir mais longe no que somos e queremos ser.
No entanto, são também frequentes os falsos tiros. Achamos que vamos correr e afinal não saímos do lugar. Mantemos-nos na linha, em posição, concentrados, atentos ao futuro que parece vir ao nosso encontro ao mesmo tempo que nos preparamos para correr na sua direcção. Mas nem o tiro de partida soa, nem nós nos arriscamos a avançar, a quebrar as regras.
E a energia esgota-se, e ficamos sós, à espera.
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