domingo, junho 07, 2015

suave


Paul Gauguin - Here We Make Love, 1893



quinta-feira, maio 14, 2015

decido eu.

Não digas ao que vens. Deixa-me
adivinhar pelo pó nos teus cabelos
que vento te mandou. É longe a
tua casa? Dou-te a minha: leio nos
teus olhos o cansaço do dia que te
venceu; e, no teu rosto, as sombras
contam-me o rosto da viagem. Anda,
vem repousar os martírios da estrada
nas curvas do meu corpo — é um
destino sem dor e sem memória. Tens
sede? Sobra da tarde apenas uma
fatia de laranja — morde-a na minha
boca sem pedires. Não, não me digas
quem és nem ao que vens. Decido eu.

Maria do Rosário Pedreira

terça-feira, abril 07, 2015

quarta-feira, abril 01, 2015

hole


Alexander Calder

domingo, março 29, 2015

ansiedade

...é mais ou menos isto:


http://snapdraws.tumblr.com/post/50082858616/apologies-for-the-terrible-image-quality-im




(com o tempo e muito trabalho interior vamos aprendendo a controlar alguns pensamentos intrusivos, e consegue-se desdramatizar o dia a dia, principalmente quando se consegue recorrer ao humor. mas há ciclos, momentos em que somos lembrados que ela está aí, como um braço mais curto, ou um outro qualquer handicap. 

sim, é por isso que pareço sempre um pouco tensa, que parece que dou importância a coisas insignificantes.
mas, sabes, uma pessoa como eu é mesmo assim. :) a única coisa a fazer é aceitar. e estar vigilante. sempre. cansa muito. 

é mais fácil perceber um problema físico, o tal braço mais curto que não chega onde queremos, mas é visível para todos e por isso não precisamos explicar nada. com a ansiedade ou a depressão é diferente. ninguém vê. e dar-lhe visibilidade implica falar no que se sente, o que pode ser pesado, aborrecido para os outros.
é por isso que calamos. e ficamos mais tristes.

aceitar é a chave. 
mas sinto às vezes que não basta eu aceitar. 
perceber que os outros (me) aceitam também faz falta.)


sexta-feira, março 27, 2015

três


Kees van Dongen

quinta-feira, março 26, 2015

paixão

li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
musica,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguirem-se da terra,
os grandes poemas desaparecerem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afaste de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluído, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que eu ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela,
a paixão grega.

Herberto Helder
in A faca não Corta o Fogo