segunda-feira, agosto 08, 2011

nu


Eduardo Viana
MNAC

quinta-feira, agosto 04, 2011

no trapézio





Inábeis, sabemos o que é preciso fazer mas vamos no sentido contrário.
Sabemos que, se olharmos melhor, encontramos a tal peça do puzzle mas preferimos tentar colocar um quadrado dentro dum círculo.
Ficamos muitas vezes tristes, solitários. 
Podemos até deixar de tentar, de arriscar. Enchemo-nos de cautelas, jogamos à defesa.
Fingimos estar bem, não queremos ver, tapamos os olhos.
Temos o vislumbre do que pode ser mas não temos mais forças e coragem para nos atirarmos, sem rede, para o vazio.
Precisamos das escolhas da maturidade mas pensamos como crianças e queremos tudo.


É preciso abdicar de uma coisa para agarrar a outra, totalmente, de corpo e alma.
A hesitação é a morte do artista, é a queda do trapézio.
É preciso superar este lado trágico que somos.
É preciso a poesia e a catarse.
É preciso a auto-superação

Março de 2011



terça-feira, agosto 02, 2011

dois de agosto de mil novecentos e noventa e nove

quetzalcoatle, a serpente emplumada


"Serenamente toco no chão com as palavras e não sinto já medo. Estou na terra e ela está em mim. Os meus pés deslizam suaves pelas ervas no chão e não sentem já a diferença que há entre eles e o território em baixo.
Dos pés emerge algo forte, profundo e sólido como a própria terra, e esta energia envolve-me todo o corpo, eleva-me os pensamentos, que fluidos, se misturam com tudo o que me rodeia.

E vejo as pessoas, sou como elas;
Vejo o rio, deixo-me levar na sua corrente;
Olho o céu e brilho no luzir das estrelas, mergulho na escuridão do universo;
Encontro-me com a Lua e sou só o olhar que lhe dirijo, pertenço-lhe;
Nasço com o sol e a sua luz ilumina-me o espirito, o seu calor derrete-me o corpo, sou só energia;
Oiço a chuva na natureza, sinto a sua fresca humidade, e lavo de mim todas as impurezas;
Mergulho no mar e sou de sal e água, de sol e vento, de luz e fogo, de terra e ar.
Estou aqui e tudo está em mim, sou só este instante breve que passou...

Serenamente, olho o passado e não estou nele; serenamente invento um futuro e ainda não estou nele. Estou aqui, na minha vida, no meu presente, que se altera minuto a minuto, pensamento a pensamento.

Toco o chão com palavras imaginárias, com pés reais e imagens só minhas.
Toco o chão e sinto o meu peso, sinto a gravidade que me empurra para a terra, que me puxa, que me envolve com doces palavras, que me promete uma tranquilidade ainda utópica. Presa ao chão (como réptil?), já não é o desconforto que sinto, mas apenas um chamamento maior, que me aproxima de tudo o que há de bom em mim.

Serenamente, misturo o sonho de voar com a força das raízes que me prendem à terra, e entre a ave que não sou e o réptil que não quero ser, invento um novo espaço, uma nova forma de estar, um pássaro  que voa envolvido no conforto da terra..."

2-08-1999

domingo, julho 31, 2011

outra dimensão

frigorífico

Gosto de entrar em lojas de electrodomésticos e de móveis. Não compro nada, fico só a ver e à procura de estórias. Há sempre homens a olhar para os enormes ecrãs lcd que gostariam de comprar mas não lhes cabem na sala nem no orçamento; há sempre mulheres a passear nas salas e quartos decorados a imaginarem uma vida familiar assim, arrumada e artificial.
Na verdade, sempre que vou a essas lojas, ando à procura deles. Do casal jovem a discutir o tamanho do frigorífico. Há uma estória com eles mas ainda não encontrei o fio condutor. Conheço apenas fragmentos e sei que o frigorífico tem um papel importante no desenlace.
Já os vi antes. Na ourivesaria, a escolher o anel de noivado, ela a cobiçar um anel com um diamante verdadeiro e ele preocupado a dizer "não gostas mais daquele?", apontando para outro com uma pequena pérola. Compraram o do diamante. Ele a suar enquanto entregava o cartão de crédito.
Anos mais tarde, ela a fumar, à porta da loja de roupa barata onde trabalha. Mais gorda, muito pintada, o cabelo com madeixas, uma t-shirt estampada com dourados, caças justas e sandálias de meter o dedo. Vendeu o anel e a aliança para entrar na sociedade da loja com o novo namorado que conheceu nas danças de salão depois do divórcio.
Ele voltou para casa da mãe. "Eu disse-te que ela não prestava", diz a senhora todos os dias, ao servir a sopa. Ainda está a pagar o crédito do anel, mas não sei qual dos dois terá ficado com o frigorífico.